Segunda escola a desfilar na Sapucaí nesta segunda-feira (12/2), a Portela fez uma apresentação emocionante, trazendo para a Avenida o enredo Um Defeito de Cor, inspirado no livro da autora mineira Ana Maria Gonçalves, sobre a vida de Luísa Mahin, heroína da Revolta dos Malês.

Para além do enredo, a agremiação emocionou o público ao desfilar com mulheres negras que perderam os filhos para a violência no Rio, como Marinete da Silva, mãe da vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018; e Jackeline Oliveira, mãe de Kathlen Romeu, grávida morta no Lins, em 2021.

Em entrevista recente ao Metrópoles, Ana Maria adiantou que o samba-enredo se desenvolveria por meio de uma carta sonhada pelos carnavalescos Antônio Gonzaga e André Rodrigues, na qual Luís Gama se dirige à mãe.

“É uma perspectiva muito interessante”, afirma Ana Maria, que até o contato da escola de samba não tinha muita ligação com o Carnaval. “Uma forma de homenagear todas as mães negras do Brasil, as mães da Portela e principalmente aquelas que não puderam criar seus filhos”, explica.

“Ainda não consigo colocar em palavras o que está sendo essa experiência. É muito enriquecedor ver como esse livro está sendo trabalhado por uma perspectiva mais popular. Infelizmente, a literatura no Brasil ainda é uma arte elitista, até porque livros são caros aqui, isso assusta as pessoas. Entã0 ver Um Defeito de Cor se transformar em um samba enredo, que é uma linguagem popular mas extremamente sofisticada tem sido muito interessante”, afirmou a autora.

“História que a gente não aprende no colégio”

Ana conta que escreveu Um Defeito de Cor para se entender como mulher negra. “Escrevi em um processo de autoafirmação, de compreender quem eu eu sou, entender a história do Brasil em relação aos povos que foram escravizados. É o tipo de história que a gente não aprende no colégio”, destaca.

Para a autora, “não saber de onde se vem cria um lapso na formação da identidade”. “A identidade negra, em paíes que foram forjados pelo racismo, pela escravidão, é algo que voce forma meio a posteriori. É interessante que muita gente, principalmente pessoas mestiças como eu, que tem uma identidade parda, me fala que começou a se entender preto no Brasil por causa do livro”. 


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Um Defeito de Cor

Pautado em intensa pesquisa documental, Um Defeito de Cor narra oito décadas da formação da sociedade brasileira, a partir da história de Kehinde, ou sequestrada, escravizada e trazida para o Brasil, onde foi batizada como Luísa.

A protagonista é inspirada em Luísa Mahin, que teria participado da célebre Revolta dos Malês, liderada por escravizados muçulmanos a favor da abolição. Ela seria mãe do advogado, abolicionista, orador, jornalista, escritor e o patrono da abolição da escravidão do Brasil, Luís Gama, vendido como escravo pelo próprio pai quando criança.

Depois de ver a história de Kehinde ganhar a Marquês de Sapucaí, Ana Maria afirma que sonha em levar o trabalho para o audiovisual, o que quase aconteceu em 2020. “A Globo me procurou para falar sobre a possibilidade de sair uma supersérie sobre o livro, mas o contrato venceu e não penso em renovar. Mas acho que em algum momento vai acontecer”, destaca. 

 

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